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CAMPANHA

Ex-lavrador, juiz Eudélcio Machado Fagundes conta sua história de vida e fala sobre o papel social dos magistrados


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Um jovem lavrador e que até os 19 anos havia cursado somente o 5º ano do Ensino Fundamental, ou seja, o antigo primário. Tendo como exemplo um juiz de Direito, ele acalentava o sonho de um dia ser magistrado. Essa é parte da história do juiz substituto em segundo grau do TJGO Eudélcio Machado Fagundes. A trajetória do magistrado é a terceira a integrar a campanha da ASMEGO Juiz Cidadão – Do berço à Toga, iniciada com a juíza Adriana Maria de Queiróz, que trabalhou como faxineira para pagar as mensalidades do curso de Direito.

Em seu relato, o juiz Eudélcio mostra que, mesmo diante de situações adversas, por meio do estudo e da isonomia do concurso público, conseguiu alcançar seu objetivo da juventude e sagrar-se magistrado. “Acredite primeiro em Deus, tenha coragem e acredite na sua capacidade. Não tenha medo de enfrentar barreiras”, afirma.

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Esta é uma das premissas da campanha Juiz Cidadão – Do berço à Toga, que por meio de histórias reais comprova que há magistrados de todas as origens e informa que o acesso à carreira é via concurso público: ferramenta democrática e isonômica, que garante a todos a possibilidade de ingresso por meio do estudo e da moral ilibada. Saiba mais.  Acompanhe também as publicações também no Facebook, Instagram e Twitter da ASMEGO.

Leia, abaixo, o relato de vida de Eudélcio Machado Fagundes, juiz substituto em 2º grau do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO):

Mais jovem entre os oito filhos de um casal de trabalhadores rurais, nasci na zona rural de Pilar de Goiás. Meus pais, Benedito Machado Fagundes e Reguzina Batista Pitaluga, tiravam da terra de nossa pequena propriedade o sustento para todos. Apesar das dificuldades comuns a uma família com poucos recursos financeiros, desde cedo aprendi o valor do estudo. Isso graças ao exemplo de minha mãe que conciliava seus afazeres em casa e na roça com as aulas que ministrava gratuitamente para crianças da região para não deixá-los analfabetos, visto que não havia nenhuma escola por lá. Assim, em casa, em meio ao trabalho no plantio e no trato com animais, aprendi a ler e a escrever e conclui o antigo primário.

Depois de concluir essa primeira fase, fiquei muitos anos sem estudar devido a falta de escola.   Até os 19 anos, me dediquei somente ao trabalho na lavoura. Então foi aberto um colégio público numa cidade próxima, Hidrolina, que onde eu pude começar a cursar o antigo ginásio. Neste tempo, tive a felicidade de conhecer um juiz desta cidade, que foi minha inspiração. Trata-se do Dr. João Batista da Silva Neto, esposo da nossa colega Vânia Jorge e que posteriormente foi ser magistrado no Rio de Janeiro.

A seriedade, a honestidade, a dedicação ao trabalho e a humanidade do magistrado fizeram a minha admiração por ele crescer. Ele era uma pessoa muito séria, mas tinha um respeito muito grande pelas pessoas mais humildes. Na minha opinião é este o comportamento que todo juiz deve ter, tratamento digno e esclarecedor respeito àqueles que não tiveram a oportunidade de estudar. O exemplo do Dr. João Batista me acompanhou pelos anos seguintes.

Em 1972, decidi vir para Goiânia em busca de novas oportunidades e me matriculei no Colégio Pedro Gomes. No ano seguinte entrei em um supletivo onde pude terminar os estudos até o Ensino Médio. Logo depois, prestei o concurso da Caixego e fui aprovado. Comecei a trabalhar em maio de 1974, completando 43 anos de serviço público. Mas não parei por aí, então, prestei o sonhado vestibular para Direito, já com o foco em seguir a carreira da Magistratura.

Aprovado na antiga Universidade Católica de Goiás, hoje PUC-GO. Tinha aulas de manhã e à noite e trabalhava na Caixego de madrugada, no departamento de Informática. Terminado o curso, já casado, fui advogar e continuei atuando como servidor público. Neste meio tempo, prestei quatro concursos para juiz.  Fui aprovado em 1987 para o cargo de Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), tendo assumido o cargo em junho de 1988. 

A minha primeira comarca foi Araguacema, localizada hoje no Estado do Tocantins. Fica a 1050 quilômetros de Goiânia, destes 220 kms eram de estrada de terra. Nem panificadora a cidade tinha. As únicas coisas a se fazer era trabalhar e ir para a beira do rio Araguaia. Eu aceitei ir para lá porque vi a situação de dificuldade do povo, que estava sem juiz há quatro anos. Fui pela missão da Magistratura. 

Lá pude vivenciar situações que marcaram toda a minha carreira. Entre elas lembro de um dia em que socorri um menino que caiu de uma caminhonete durante um comício. Dias depois, o pai do garoto, muito pobre mas muito grato, me levou uma vasilha cheia de pequi como agradecimento. Na minha visão, o magistrado tem esse importante papel de pertencer à comunidade em que está inserido. O juiz que se aproxima da sociedade é respeitado. Depois de promulgada a Constituição de 1988, quando houve a divisão entre Goiás e Tocantins, fui para a comarca de Uruana.

Também atuei em  Itapaci, Carmo do Rio Verde e Itapuranga, sendo promovido para a comarca de Niquelândia em setembro de 1991. Em 1992, fui promovido para a Comarca de Anápolis, onde morei por 8 anos, sendo titular da 3ª Vara Cível, bem como Diretor do Foro daquela Comarca entre outras atividades jurisdicionais e administrativas.Em fevereiro de 2000, eu vim para Goiânia, fiquei no 9º Juizado por dois anos. Depois, atuei por 9 anos da 7ª Vara Cível e a partir de 2011 fui promovido para juiz substituto em 2º grau.

De toda a minha experiência como magistrado creio que o maior entrave é o acúmulo de trabalho. Quando eu atuava em Anápolis e na 7ª Vara Cível, por exemplo, era comum levar trabalho para casa aos finais de semana e ficar no fórum até tarde da noite. Há um grande sacrifício em questões de convívio familiar. Este é um lado da vida de juiz que a sociedade desconhece. Lembro que, às vezes, eu ficava trabalhando até 2 horas da manhã e imaginava: o cidadão está dormindo e nem imagina que, neste momento, estou decidindo sua vida.

Mesmo com todos os percalços que vivi e as dificuldades em que a Magistratura está vivenciando hoje, me sinto gratificado e faria tudo de novo. Vale a pena. Por isso, para quem tem o sonho de ser juiz e, assim como eu vem de origem humilde, a minha palavra é que siga em frente, encare as dificuldades. Acredite primeiro em Deus, tenha coragem e acredite na sua capacidade. Não tenha medo de enfrentar barreiras. Conheci pessoas com a situação mais difícil do que a minha, como é o caso inclusive da minha esposa e que se superaram. Não desista!

Fonte: Assessoria de Comunicação da ASMEGO | Mediato Multiagência


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