26/01/2019

Vale de lágrimas, mar de impunidade | Eduardo Perez Oliveira

Vale de lgrimas, mar de impunidade | Eduardo Perez Oliveira

 

Por Eduardo Perez Oliveira

Ai, Mariana, não secaram ainda as lágrimas que derramaste em 2015 e vem Brumadinho fazer par contigo nesse vale infinito de tristezas.

Diz o ditado judaico que aquele que salva uma vida, salva o mundo. E o que se pode dizer daquele que as ceifa? E as ceifa de tarrafa, pescando nesse rio amargo incontáveis Joões e Marias, cujas existências inocentes são interrompidas apenas porque ficam no caminho do lucro.

O lodo invadindo tudo é a imagem certa de um mundo que perdeu seu rumo, no qual vidas são contabilizadas como estatísticas, não como singularidades.

Vai Mariana, esquecida entre “realities shows” e escândalos prêt-a-porter. Seus mortos sepultados sob a fétida lama da ganância. Perdas irreparáveis de vidas, de fauna, de flora, presentes sem preço de um universo árido.

Chega Brumadinho, em 2019, e as águas de janeiro nunca serão suficientes para lavar esse lodo.

No ápice do desespero, surgem os abutres para fazer proselitismo político: usando a tragédia para justificar suas ideologias, para atacar as alheias.

Para quem vê de fora, os olhos marejados, não há diferença na penugem dos urubus que permitiram que a barragem rompesse, e daqueles que se regozijam com o desastre para capital político: ambos se alimentam dos corpos das vítimas, sempre vítimas, mesmo antes de sua morte.

E é tudo tão barato nesse país. Mata-se como se fosse nada. E se a morte é limpa e decorre de uma falta de zelo com a estrutura, de uma falta de cuidado que poderia poupar vidas, então querem te convencer de que não há assassino.

Mas há! Muito mais torpe é a mão que segura a caneta do que aquela que maneja o punhal: a lâmina mata no varejo, enquanto a caneta, essa caneta de ouro tão rara, o faz no atacado.

Um país completamente perdido em discussões vazias, em pautas inúteis e irrelevantes que consomem nosso tempo e nosso dinheiro, enquanto a impunidade impera. O silêncio obsequioso de autoridades, de artistas financiados, de mídia paga é tão sólido que torna até difícil respirar.

Três anos se passaram sem culpados pela morte de Mariana. Quantos mais?

Enquanto for barato, ou pelo menos demorado, ser punido no Brasil teremos mais Marianas, que o diga Brumadinho.

Queremos culpados punidos. Queremos um país de deveres, não só de direitos. Queremos que doa não só no bolso, mas na honra e na liberdade de quem pratica um crime, e que mais grave seja a pena quanto pior a conduta.

É tão pouco e tanto esperar justiça no Brasil omisso que impele o povo a querer fazer essa mesma justiça que cansa de aguardar.

Tão certo Drummond, ao dizer sobre o Rio Doce, “Quantas toneladas exportamos / De ferro? / Quantas lágrimas disfarçarmos / Sem berro?”.

Há alternativa a essa impotência que nos corrói? Além de estender a mão para ajudar, a nação quer que isso pare. É preciso o berro. Chega de exploração. Entre tantos puxa-sacos, não há um que possa dizer a verdade às autoridades? Entre tantas carteiras cheias de brasões, não há uma que faça valer a lei?

São tantos desastres, tantas vidas perdidas, tanto silêncio, e na tela, a próxima novela.

Até quando?

 

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